A doença invisível da vida moderna: O colapso do sabor pela vida
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Ontem eu tive uma conversa com uma mulher inteligente e autêntica chamada Ana Clara Terres.
Eu sempre achei ela curiosa, ela sempre parecia ter usado drogas enquanto olhava a paisagem na praia (e ela não usa nada). Sabe aquela pessoa que tem uma admiração profunda pela vida e demonstra sentir tudo com força?
Essa mulher me contou ontem uma frase que mexeu demais comigo:
“O mais importante é nunca perder o encanto.”
— Ana Clara Terres
Eu nunca tinha ouvido alguém falar isso e como você me conhece, passei as últimas horas da minha manhã discutindo com o ChatGPT por voz (enquanto arrumava a casa) e consegui entender a profundidade dessa frase.
Fazia tempo que não tinha contato com uma ideia com um poder de transformação tão grande e que sinto que irá transformar a minha vida para sempre.
E não estou exagerando.
Mas vamos começar do início.
O início do colapso do significado
Eu sou bem grato pelo avanço tecnológico e científico. Eu uso demais a Razão e valorizo muito o olhar para evidências, acredite. Não acredito nem em mim mesmo muitas vezes, duvido de tudo e todos, acho saudável essa dose de ceticismo, para evitar vieses cognitivos e burrices pré-configuradas do nosso cérebro primitivo.
Tendemos a burrice. Basta ler um pouco de história.1
Mas agora entendi que eu estava indo por um caminho errado, me gerando uma vida sem sabor, puramente utilitarista e sem gosto de viver.
E isso não veio de mim, veio de uma história datada em ~260 anos atrás.
A tal da Revolução Industrial e alguns filósofos como Jeremy Bentham.
Depois que a gente começou a cultivar grãos e viver em fazendas (Agricultura), nós paramos de andar em tribos e circular o mundo caminhando em bando. Isso levou a ideia de Propriedade Privada e todo o resto você sabe.
Com a Revolução Industrial, veio junto a ideia de que o bom mesmo é mais.
Mais rápido, mais barato e melhor. Quanto mais melhor.
O resto é desperdício de tempo.
Beleza? Que desperdício. Arte? Que desperdício.
Tudo isso começou a parecer uma mentira sem função. A função ganhou da forma, só faz sentido fazer se tiver retorno, porque tempo é dinheiro.
Essa noção quase destruiu minha vida.
E acredito que é a razão pelas mazelas da sociedade, vamos aprofundar.
O valor da utilidade
É óbvio que a ciência e a tecnologia nos gera benefícios. Quem fala o contrário, é um cego e surdo que negligencia a sua longevidade e todos os benefícios da nossa sociedade, como o próprio tempo para a arte.2
Se não fosse a ciência, a gente estaria ocupado demais caçando para não morrer, mas como tivemos abundância, pudemos ter tempo para a filosofia, a arte e a música.
Eu entendo.
Eu valorizo muito a ciência, inclusive mudei minha carreira para trabalhar com tecnologia do tanto que eu me amarro em construir coisas e resolver problemas através do amontoamento de conhecimentos específicos.
Isso é ótimo, tudo lindo e maravilhoso até aqui.
O problema começa quando a gente deixa de lado e des-prioriza o Encanto.
Esse é o ponto que Ana despertou em mim e consegui entender tudo agora!
É muito poderoso, vamos aprofundar no Encanto.
A etimologia de Encanto
Eu adoro ver a origem das palavras, acho que elas guardam segredos. Significados profundos de onde é que os humanos começaram a nomear essas coisas.
E qual a origem de Encanto?
In (dentro/sobre) Cantare (cantar)
Ou seja,
Cantar sobre algo ou lançar um canto, como se estivéssemos orando e emanando algo sobre as coisas, igual quando rezamos ou desejamos o bem para outra pessoa.
A gente encanta as coisas dependendo de como colocamos intenção nas coisas, é uma forma de ver o mundo.
Mas qual a utilidade disso?
Por que eu deveria me preocupar com o encanto das coisas?
Simples, porque a vida sem encanto não vale a pena ser vivida.
É uma comida sem sal, sem sabor e sem tempero. Por que viver uma vida onde não se tem gosto? Não se tem nada que pese a balança para o lado de que no fim da vida, você pense com si mesmo: eu viveria de novo, com toda a certeza!
Por que viver quando temos tanto sofrimento e dor?
É o Encanto que resgata esse desejo pela vida, que pesa a balança para o positivo.
Como disse Friedrich Nietzsche:
“Sem a música, a vida seria um erro.”
Precisamos do Encanto pela vida (que pode vir através da arte), porque sem o encanto, a vida não vale a pena ser vivida.
Se tudo vira um processo mecânico eficiente, mas não tem gosto, não tem significado e acabamos como robôs vazios, deixamos de ser humano.
Se você executa tudo barato em milissegundo, por que isso tem valor? Porque isso te gera recursos para viver uma vida extraordinário.
Recursos para viver o extraordinário!
É o Encanto que resgata nosso olhar para ver o extraordinário nas coisas banais.
Além de construir uma vida com grandes obras e experiências extraordinárias, o Encanto constrói essa vida extraordinária no dia a dia, nas coisas simples, é esse efeito cumulativo do encanto com a vida que gera uma vida que vale a pena ser vivida.
Uma vida com sabor.
A vida sem Encanto, sem maravilhamento, sem contemplação, só serve para gerar mais recursos e os recursos serão usados para que? Para gerar mais recursos?
A filosofia do Utilitarista é uma filosofia vazia, sem alma e sem sabor.
Se constrói um castelo, onde ninguém mora e não existe amor.
A máquina deveria nos servir para proporcionar momentos significativos e extraordinários, não para apenas gerar mais recursos de forma mais barata.
É como alguém que viaja para gastar gasolina, qual o motivo da sua viagem? Gastar e acumular gasolina? Dinheiro é combustível, não é destino e nem jornada.
A jornada e o destino vem de encontrar beleza na vida, cultivar o Encanto e construir uma vida extraordinária, uma vida rica de amor, significado e criação.
Isso é ser rico.
Transformação no modus operandi
Vou começar a dividir meu dia entre:
Momentos de Razão
Momentos de Encanto
No momento de Razão eu uso a ciência e a tecnologia para resolver problemas e gerar recursos com eficiência.
Para que?
Para viver momentos extraordinário de Encanto, para viver experiências extraordinárias ao lado de pessoas que amo.
O propósito da minha vida de hoje em diante serve a essa finalidade, transformar minha vida numa bela pintura. Numa obra que me orgulharei de contar.
A última arte é a vida.
— Chris Fedrizzi 😂
E como se cria beleza sem cultivar o encanto do artista? O encanto da criança?
Ninguém cria nada de qualidade sem encanto, sem paladar e repertório.
São essas coisas “inúteis” que são as recompensas do trabalho duro e os frutos do trabalho, é por isso que a gente trabalha, para viver uma vida extraordinária e proporcionar o mesmo aos nossos irmãos seres humanos.
Se sua filosofia não te proporciona bem-estar, se tudo na tua vida não tem sabor e nem amor, por que essa vida vale a pena ser vivida?
Se imagine na hora da morte com 80 anos agora, o que te faria pensar:
Eu viveria tudo isso de novo, porque valeu a pena.
Se no fim da vida, você deseja a morte e quer deixar de existir, a sua balança não estava equilibrada para ver as coisas boas da vida, para cultivar esse encanto que nos nutre de significado e que faz a vida valer a pena.
Chamada para ação
De hoje em diante, começarei um hábito simples de olhar para o banal, mas olhando seus detalhes com atenção penetrante para ver suas qualidades, suas nuances e a beleza nas coisas simples.
Hoje eu adotei um novo set de olhos.
Tentarei algum desses hábitos:
Diário de observação: olhar algo e conseguir captar seus detalhes todo dia.
Fotografia: usar essa arte para visualizar nuances e apreciar detalhes a transformando uma imagem linda capturada por um olho atento.
Música: retomar a prática da produção e mixagem de música eletrônica.
Consumir boa arte: ver bons filmes, ler bons livros e apreciar outros artistas.
Cultivar estética: me vestir bem e cuidar do ambiente onde vivo com intenção.
Meditação: reservar um tempo para me observar e sentir meu corpo.
Contemplação: caminhar na natureza presente e observando cada lindo detalhe.
Ritual do banal: transformar um banho simples, num ritual de conexão.
Alongamento: reservar 15 minutos por dia para alongar e cuidar do meu corpo.
Journal emocional: escrever o que sinto, o que percebi no dia e o que aprecio.
Ainda não sei como isso irá transformar a minha vida, mas sei que me tornarei um homem mais completo, mais amável e mais sábio.
Desenvolver essa Sensibilidade, essa profundidade no olhar é uma ato de rebeldia na sociedade atual. É resgatar o sabor, o valor da calma e da regulação sem anestesia.
Uma vida calma.
Uma vida que vale a pena ser vivida.
Do contrário, compare com viver num mundo de imagens e de aparência, onde não se tem alma e todos se tornam funções para apenas multiplicar mais capital.
Tenho dó de quem chegará aos 80 anos e irá perceber que deixou a vida passar, ressentido e sem sentir o porquê valia a pena estar vivo.
Com milhões na conta e um coração vazio. Uma casa sem coração.
Que sentido tem isso?
Ana, obrigado pela mensagem ontem.
Esse gatilho foi exatamente o que eu precisava.
Obrigado a você leitor, e obrigado a vida. Como é bom viver.
Se temos encanto, se temos beleza e amor, então tudo vale a pena.
E quero ser capaz de em meu leito de morte, dizer:
Me orgulho do homem que fui
Estou rodeado de amor e significado
Vivi uma vida extraordinária e viveria tudo de novo! É isso o que quero dizer.
A morte, a dor e o sofrimento não são nada perto da beleza do que eu vivi.
Esse é o norte e o destino do meu Ser.
Espero de coração que isso o tenha inspirado a viver o extraordinário, resgatando o Encanto com a vida, como a Ana vive em sua vida.
Sejamos Ana em nossas vidas.
— Chris Fedrizzi
Exemplos de burrice: Pessoas vendiam casas por tulipas em 1637, isso virou uma bolha. Milhares de mulheres executadas por acusações sem evidência de que eram bruxas. Médicos não lavavam as mãos e mataram milhões por infecção. Apenas citando alguns.
Nossa expectativa de vida saiu de ~30 anos para ~72 anos. Mortalidade infantil despencou. Vírus deixaram de dizimar populações. Dor física foi drasticamente reduzida com anestesia. Fome extrema diminuiu significativamente. Acesso ao conhecimento explodiu.


Ótima reflexão! De que vale a vida, sem qualidade, profundidade e significado? O PRINCIPAL É NAO PERDER O ENCANTAMENTO!! Corremos tanto atrás da felicidade, sem perceber que ela já está ao nosso lado: a simplicidade!